Eles chegam em casa tarde da noite, vindos do mesmo restaurante onde se sentam à mesma mesa e comem a mesma massa e tomam o mesmo vinho e trocam as mesmas farpas há dez anos.
Ele olha a própria cara no espelho, torta pelo álcool e pelas olheiras e pela papada cada vez maior. Resmunga a mesma resposta indiferente pra alguma coisa que a mulher diz, que ele sabe que, como sempre, não é nada de importante.
Deita. Dorme. Ronca.
Levanta no meio da madrugada pra ir ao banheiro e nem dá pela falta da mulher.
Só depois do décimo oitavo toque da campainha acha que tem alguma coisa estranha. Vai até a porta. Abre. E diz: "porra, por que tu num leva a chave?"
Bate a porta e quase derruba o banquinho emprestado do porteiro no hall de entrada.
Ela ensaia uma reclamação pelas costas doloridas.
Vão dormir em silêncio.
# posted by coelha @ 04:38